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Raízes protegidas, lavouras mais resilientes: O manejo de patógenos de solo frente ao estresse hídrico.  

Autores: Dr.ª Renata de Lima, Dr.ª Leonardo de Oliveira Barbosa, Dr.ª Márcia Gabriel e Dr.ª Jessica da Mata dos Santos Monteiro

Introdução

A resposta de uma cultura à estiagem envolve muito mais do que o volume de chuva que caiu ou a umidade acumulada no solo. O ponto crítico é a capacidade real da planta em extrair esse recurso, o que está diretamente ligado à profundidade e à arquitetura de suas raízes. É essa capacidade de exploração do perfil que sustenta o potencial produtivo quando a água escasseia no campo.

Por isso, o controle de fungos e nematoides fitoparasitas habitantes do solo deixa de ser uma mera aplicação de rotina no calendário fitossanitário para se transformar em uma estratégia de sobrevivência da lavoura. Neutralizar preventivamente esses patógenos protege a integridade mecânica das raízes e mantém desimpedidas as vias hidráulicas que abastecem a parte aérea. Não se tem controle sobre as falhas no regime de chuvas, mas manter o sistema radicular biologicamente sadio e livre de lesões é a forma mais segura de preparar uma planta para enfrentar o estresse hídrico.

A dinâmica entre doenças radiculares e disponibilidade de água

A água presente no perfil do solo regula a interação entre a planta e os patógenos, mas essa relação muda de acordo com o ambiente, com intensidade a duração do estresse e o momento em que a infecção ocorre (Choudhary & Senthil-Kumar, 2024). Em solos saturados, a falta de oxigênio prejudica as funções vitais das raízes e acelera o desenvolvimento de podridões causadas por oomicetos, como Pythium spp. e Phytophthora spp. Sob essas mesmas condições de alta umidade, fungos como Rhizoctonia spp. e espécies de Fusarium também ganham importância. Já a restrição hídrica severa cria o ambiente ideal para patógenos oportunistas adaptados ao estresse térmico, como Macrophomina phaseolina, o agente da podridão-de-carvão (Zaccaron et al., 2024).

Independentemente do clima que favorece cada doença, a lesão no sistema radicular limita a área de exploração da planta. Necroses, podridões e obstruções nos vasos condutores diminuem a captação de recursos. Na prática, a água presente nas camadas profundas do solo fica inacessível se a estrutura de absorção estiver danificada. Quando o solo seca, a planta precisa aprofundar e ramificar suas raízes para captar a umidade restante (Zhang et al., 2025). Se as raízes já estiverem debilitadas por infecções, a cultura sofre simultaneamente com o ataque do patógeno e com a seca. Essa combinação multiplica os danos no desenvolvimento geral da lavoura.

O manejo de patógenos de solo exige planejamento integrado e preventivo. O uso de sementes sadias e tratadas, a rotação de culturas, a escolha de cultivares adaptadas, o controle da compactação e o uso correto das ferramentas biológicas e químicas funcionam como uma estratégia conjunta para proteger a integridade radicular.

Nematoides e o bloqueio hidráulico das plantas

O déficit hídrico limita o potencial produtivo das culturas, mas o impacto varia conforme a arquitetura da raiz, sua profundidade, ramificação e volume de biomassa (Chen et al., 2022; Zhang et al., 2025). Nematoides fitoparasitas reduzem essa capacidade de exploração porque causam destruição direta de tecidos, alterações celulares e distúrbios na fisiologia da raiz. O gênero Pratylenchus spp., com o seu hábito endoparasita migrador, ao se movimentar dentro dos tecidos radiculares, causa lesões mecânicas e altera as respostas moleculares do hospedeiro (Fosu-Nyarko & Jones, 2016). Já os nematoides sedentários, como Meloidogyne spp. e Heterodera spp., modificam as células para criar sítios de alimentação permanentes, chamados de células gigantes e sincícios, respectivamente (Kyndt et al., 2013). Essas estruturas desviam a energia da planta e bloqueiam os canais de absorção, prejudicando o funcionamento do sistema radicular mesmo sem sintomas visíveis na parte aérea. O prejuízo prático fica evidente na estiagem. Uma planta com raízes lesionadas ou deformadas não consegue extrair água do solo. Em trigo atacado por Pratylenchus thornei, populações altas do nematoide reduziram o consumo de água pelas cultivares intolerantes, alterando a dinâmica de uso das reservas hídricas do solo e limitando o rendimento final  da cultura (Whish et al., 2014).

Por outro lado, fatores físicos aumentam ainda mais a gravidade desse cenário. A compactação do solo impede o crescimento das raízes devido à resistência mecânica, além de reduzir a aeração e alterar a movimentação da água no perfil (Tracy et al., 2011). Como agravante, as lesões causadas por nematoides servem de porta de entrada para fungos de solo, criando complexos de doenças envolvendo Meloidogyne, Heterodera, Rotylenchulus e Pratylenchus (Back et al., 2002). Esses complexos causam danos muito maiores do que os patógenos isolados. E sob estresse hídrico, esses problemas se acumulam nas lavouras. Portanto, superar a seca depende diretamente de manter a integridade mecânica e fisiológica das raízes (Whish et al., 2014; Tracy et al., 2011).

A ação dos agentes de controle biológico na mitigação de estresse

Quando microrganismos benéficos agentes de controle biológico são   introduzidos no sistema, o benefício vai muito além de blindar a raiz contra fitopatógenos e nematoides. Esses microrganismos dão início a uma verdadeira reprogramação fisiológica e molecular das plantas, antecipando as suas defesas antes mesmo que a estiagem dê os primeiros sinais no campo.

O primeiro impacto ocorre na raiz: ao sintetizarem Ácido Indolacético (AIA) e outros fitormônios, os agentes biológicos estimulam o alongamento da raiz principal e multiplicam os pelos radiculares. Essa expansão geométrica da área de contato permite captar água em franjas do solo antes inacessíveis.

Paralelamente, quando a restrição hídrica severa se instala, a planta tende a elevar a produção de etileno, o hormônio do estresse que acelera o envelhecimento das folhas e derruba o rendimento. É aqui que entra uma propriedade bioquímica crucial desses agentes, a exemplo das bactérias promotoras de crescimento: a produção da enzima ACC-desaminase. Ela cliva o precursor do etileno, atenuando o sinal de alerta interno da cultura e prolongando o tempo em que as folhas permanecem verdes e fazendo fotossíntese.

Ao mesmo tempo, esses aliados microbianos induzem o ajustamento osmótico nas células vegetais, forçando o acúmulo de solutos compatíveis, como a prolina e açúcares solúveis, no citoplasma. Esse processo eleva a concentração interna da célula e impede que ela perca água por osmose para o solo seco, mantendo o turgor e a hidratação dos tecidos.

Para fechar o cerco de proteção, os agentes de biocontrole ativam o sistema antioxidante da planta, estimulando enzimas como a catalase e a superóxido dismutase. Elas agem como uma faxina química, neutralizando as Espécies Reativas de Oxigênio (EROs) que se acumulam durante a seca e que, se ignoradas, destruiriam as membranas celulares.

No campo, essa engrenagem funciona de forma ainda mais expressiva quando fungos e bactérias, a exemplo de Trichoderma sp. e Bacillus sp. são combinamos em consórcios microbianos. Enquanto o Trichoderma trabalha na estruturação e na proteção inicial do ambiente radicular, o Bacillus atua na estabilidade celular e na liberação de exopolissacarídeos (EPS), substâncias mucilaginosas que criam uma espécie de esponja microscópica retendo umidade bem ao redor das raízes.

Essa ação conjunta garante às culturas tratadas preventivamente, uma janela extra de sobrevivência durante os veranicos, mantendo o fôlego produtivo da lavoura até que as chuvas retornem.

O diagnóstico como ponto de partida

Proteger a raiz não se resume à aplicação de insumos para estimular o crescimento. Antes de adotar qualquer tecnologia, é preciso identificar o fator chave limitante do sistema radicular, desvendando o que impede a raiz de explorar o perfil do solo. A causa pode ser a pressão de nematoides, incidência doenças de solo, compactação física, desequilíbrios químicos ou a falta de água isolada (Tracy et al., 2011). Estimular o arranque de uma raiz que sofre ataques contínuos de nematoides traz pouco resultado prático, pois o estímulo não elimina o patógeno que destrói os tecidos. Do mesmo modo, uma raiz livre de patógenos não avança se encontrar uma camada compactada ou sem nutrientes.

O manejo para mitigação do estresse hídrico começa pelo diagnóstico das condições biológicas, físicas e químicas do solo. Essa análise permite direcionar os investimentos em nematicidas, fungicidas, corretivos e ferramentas biológicas com maior precisão e viabilidade econômica. Uma raiz protegida, que cresce sem interferências e permanece íntegra, aproveita melhor o volume de solo, garantindo estabilidade nutricional e hídrica para a cultura enfrentar os períodos de seca.

Considerações finais

Olhar para a lavoura e entender que a resiliência é construída de baixo para cima muda a nossa forma de manejar o campo. Diante de um clima cada vez mais imprevisível, a tolerância de uma cultura à seca não pode ser tratada como um evento isolado ou uma característica resolvida apenas na escolha da semente. Ela depende de uma engrenagem que conecta a física, a química e, principalmente, a biologia do solo.

O manejo integrado de patógenos e nematoides deixa de ser uma resposta de emergência para se consolidar como uma estratégia de base contra o estresse hídrico. Neutralizar preventivamente essas ameaças e descompactar o solo são ações fundamentais para desobstruir as vias hidráulicas da planta, garantindo que o sistema radicular mantenha sua integridade mecânica para explorar o perfil.

É nesse cenário que os agentes de biocontrole mostram seu real valor estratégico. Muito além de combater doenças, esses aliados microscópicos agem preventivamente, desencadeando uma verdadeira faxina antioxidante, promovendo o ajustamento osmótico e regulando os hormônios de estresse da planta, predispondo a cultura a suportar a escassez de água antes mesmo que ela aconteça.

O sucesso na mitigação da seca começa na precisão do diagnóstico do solo. É essa leitura realista da rizosfera que permite ao produtor utilizar as ferramentas químicas e biológicas de maneira assertiva. No fim das contas, construir uma lavoura resiliente significa garantir que cada raiz permaneça íntegra, saudável e funcional, pronta para suportar o período seco e sustentar o potencial produtivo da cultura.

 

Referências Bibliográficas

Back, M. A.; Haydock, P. P. J.; Jenkinson, P. Disease complexes involving plant parasitic nematodes and soilborne pathogens. Plant Pathology, v. 51, n. 6, p. 683–697, 2002. DOI: 10.1046/j.1365-3059.2002.00785.x.

Chen, Y.; Wang, Z.; Ye, H.; Liu, S.; Nguyen, H. T.; Lam, H.-M.; Siddique, K. H. M. Root physiology and morphology of soybean in relation to stress tolerance. Advances in Botanical Research, v. 102, p. 77–103, 2022. DOI: 10.1016/bs.abr.2022.02.005.

Choudhary, A.; Senthil-Kumar, M. Drought: a context-dependent damper and aggravator of plant diseases. Plant, Cell & Environment, v. 47, n. 6, p. 2109–2126, 2024.

Fosu-Nyarko, J.; Jones, M. G. K. Advances in understanding the molecular mechanisms of root lesion nematode host interactions. Annual Review of Phytopathology, v. 54, p. 253–278, 2016. DOI: 10.1146/annurev-phyto-080615-100257.

Kyndt, T.; Vieira, P.; Gheysen, G.; De Almeida Engler, J. Nematode feeding sites: unique organs in plant roots. Planta, v. 238, n. 5, p. 807–818, 2013. DOI: 10.1007/s00425-013-1923-z.

Tracy, S. R.; Black, C. R.; Roberts, J. A.; Mooney, S. J. Soil compaction: a review of past and present techniques for investigating effects on root growth. Journal of the Science of Food and Agriculture, v. 91, n. 9, p. 1528–1537, 2011. DOI: 10.1002/jsfa.4424.

Whish, J. P. M.; Thompson, J. P.; Clewett, T. G.; Lawrence, J. L.; Wood, J. Pratylenchus thornei populations reduce water uptake in intolerant wheat cultivars. Field Crops Research, v. 161, p. 1–10, 2014. DOI: 10.1016/j.fcr.2014.02.002.

Zaccaron, M.; Holland, R.; Gbur, E.; Thompson, K.; Rojas, J. A.; Rupe, J. C. Effect of drought stress during seed development on charcoal rot and yield of soybean. Plant Disease, v. 108, n. 11, p. 3258–3268, 2024.

Zhang, Y.; Wu, X.; Wang, X.; Dai, M.; Peng, Y. Crop root system architecture in drought response. Journal of Genetics and Genomics, v. 52, n. 1, p. 4–13, 2025. DOI: 10.1016/j.jgg.2024.05.001.

 

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